Muito para além da meta: a Psicologia no coração do desporto

Há algo no desporto que nos deixa extremamente irrequietos, prestes a saltar da bancada, mesmo quando não somos nós os protagonistas. A luta, a entrega e a forma como, por instantes, acreditamos que tudo se pode decidir num sopro de coragem. Mas a verdade é que, neste sopro, nestes momentos decisivos, há muito que não se vê. E é aí que começa a Psicologia do Desporto.

Porque antes do pódio há dúvidas. Antes da superação existe medo. E por detrás de cada atleta, há uma pessoa inteira: com histórias, pressões, sonhos e silêncios que não entram nas estatísticas do jogo.

A Psicologia do Desporto não é só para quem quer ganhar.

É para quem quer continuar inteiro enquanto tenta. É para o/a adolescente que, depois de um erro num jogo, não consegue dormir. É para o/a jovem atleta que começa a sentir que o corpo já não é só corpo, mas que se transformou em medidas, em exigência. É para o/a treinador/a que carrega nas costas o peso da vitória dos outros e os olhares da desconfiança. É para o pai ou para a mãe que, por querer estar próximo/ado seu/sua filho/a, troca o apoio pela cobrança desmedida. É também para o/a ex-atleta que, sem saber muito bem como, perdeu o chão quando o apito final se tornou definitivo.

Hoje, mais do que nunca, fala-se muito de desempenho, do foco, da confiança e da motivação, mas a verdade é que no desporto, tal como na vida, fala-se pouco de escuta, de limites e de cansaço emocional. No desporto não existem apenas corpos que se superam para atingir resultados. Não podemos cair no reducionismo de promover o melhor desempenho se não estivermos comprometidos em promover o melhor bem-estar possível de todos os intervenientes desportivos.

Na psicologia do desporto há espaço para o treino mental, sim. Mas também para o acolhimento daquilo que não cabe nos treinos. Para a gestão da ansiedade, para o luto das derrotas, para a reconstrução da
identidade quando a camisola já não está vestida.

Porque a saúde mental é o que permite que a paixão pelo jogo não se transforme numa prisão. É o que nos lembra que não somos apenas as conquistas que estão à vista de toda a gente.

E que, mesmo no desporto, talvez sobretudo no desporto, o ser humano vem antes do se ser herói. A meta nunca está só na linha de chegada. Está em cada momento em que alguém tem coragem de parar, sentir e pedir ajuda.
E isso, também, é uma forma de vitória.

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