É Natal. Os sinos tocam. As luzes brilham. As casas e as lojas são decoradas. Compramos presentes para oferecer. Preparamos uma mesa farta. Somos mais solidários/as e unidos/as. É altura de estarmos todos/as felizes, certo?

Não. Não é obrigatório estarmos felizes no Natal. Quantos/as de nós são afetados/as por sentimentos de tristeza, angústia e ansiedade nesta época festiva!…

Criamos tamanhas expectativas para aquilo que deve ser esta quadra que, não raras vezes, nos deparamos com uma realidade dececionante. Achamos que, por uma só vez em dezembro, podemos e devemos estar felizes.

Mesmo sem um quadro reconhecido nos Diagnósticos de Perturbações Mentais, tem-se falado sobre aquilo a que se apelida de Christmas blues (ou tristeza natalícia). A excessiva comercialização do Natal e a pressão para a felicidade fortificam a tristeza normativa de muitas transições na nossa vida, como a perda de um ente querido, situações de doença, desemprego, dificuldades económicas, conflitos familiares, entre outras. Quem se encontra numa situação de saúde mental comprometida tem, inclusivamente, tendência a piorar nesta fase do ano. E nem vos falo do baque que se segue após o Natal – o Ano Novo, onde tendencialmente efetuamos um balanço no ano… e revemos as resoluções que não foram cumpridas.

Em vez disso, vou falar-vos de um cartoonque tanto aprecio: o especial de Natal do Charlie Brown. Lançado em 1965, traz-me sempre um conforto, ainda que com alguma melancolia misturada. O icónico personagem, conhecido pelos seus níveis consideráveis de ansiedade, partilha com o seu amigo Linus sentir haver algo de errado consigo, pois o Natal está a chegar e não se sente feliz como deveria, não obstante a euforia que se instala em seu torno. Chega a solicitar a ajuda da “psiquiatra” de serviço, Lucy, para partilhar os seus sentimentos de tristeza, tendo-lhe sido prescrito um maior envolvimento nas atividades festivas. 

Ao ser convidado para dirigir a peça de Natal das crianças, escolhe uma simpática, mas humilde e despida árvore para decorar o palco. A sua escolha não foi bem recebida, mas Charlie Brown aprofunda o verdadeiro significado de Natal e decide adorná-la. Recebe a ajuda dos seus amigos e Linus cede o seu cobertor de segurança para servir como base da árvore, acrescentando que “Às vezes, só é preciso um pouco de amor”.

Às vezes… o simples é o melhor que temos. Não precisamos de forçar felicidade. Não precisamos de reparar uma relação com quem nos fez ou faz mal. Não conseguimos ignorar a dor que é um primeiro Natal sem alguém que já não temos ao nosso lado. Há que fazer o possível, mesmo que isso nos obrigue a ajustar as expectativas. A afastarmo-nos de fontes de conflito. A desconstruir as aparências que nos são vendidas. A procurar novas maneiras de celebrar o Natal. A procurar o apoio emocional junto daqueles/as que nos querem bem. A cuidarmos de nós. E a ter esperança num amanhã melhor. Pois amanhã ainda é Natal.

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